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Rankings e Disfunção Coletiva

Nuno Rebelo dos Santos

24 de Outubro de 2019

Nuno Rebelo dos Santos

Era uma vez um corpo humano. Era constituído por diversos órgãos, como o coração, o cérebro, o fígado e os pulmões, entre outros. O cérebro achava-se importante e por isso queria demonstrar o seu valor. Disse aos restantes órgãos que iria medir o quanto cada um deles era responsável por fluxos de energia nervosa. No final, criou um ranking e mostrou, com orgulho, que ocupava o primeiro lugar. Os restantes órgãos ficaram envergonhados e cada um deles convocou uma assembleia geral de todas as suas células.

O fígado era o mais incomodado com a sua posição. Surgiram opiniões distintas sobre o que fazer para subir no ranking que o cérebro iria repetir no ano seguinte. Disputaram as diferentes propostas e um grupo de células conseguiu convencer as demais de que era importante alterarem um dos seus genes. Era o gene responsável pelo desenvolvimento do tecido nervoso. Assim conseguiriam ultrapassar outros órgãos e mais tarde, quiçá, destronar o cérebro da sua posição soberana.

Uma comissão foi nomeada para produzir alterações no gene implicado na situação. Várias células foram recrutadas para realizar o trabalho braçal necessário e outras para as tarefas de engenharia. Um conjunto de assessores foi também mobilizado. Seguiram-se meses de esforço disciplinado. Uma vez por semana, as células dirigentes do fígado reuniam a assembleia geral e reafirmavam o propósito estabelecido de subida de cinco posições no ranking criado pelo cérebro. Cantavam o hino do fígado e prosseguiam o trabalho árduo necessário.

Entretanto, as tarefas que tradicionalmente eram pedidas ao fígado começaram a ser colocadas em segundo plano. As células estavam tão mobilizadas para o propósito de destronar cinco outros órgãos no ranking criado pelo cérebro que consideravam desinteressante dar conta das tarefas tradicionais, com diligência e qualidade. Assim, o corpo humano no seu todo começou a ficar intoxicado. As funções de limpeza do organismo atribuídas ao fígado eram tarefas de segunda categoria, e o que as células hepáticas mais queriam mesmo era subir no ranking do cérebro.

Algumas das células cuja função era fazer circular a informação começaram a dar o alerta sobre o déficit existente no cumprimento das funções hepáticas tradicionais, mas como todos estavam focados na obsessão do ranking, ninguém dava ouvidos a esses alertas e mantinham o propósito estabelecido superiormente, isto é, subir no ranking do cérebro. As células dirigentes estavam felizes e chamavam a esse comportamento das células colaboradoras “manter o foco no negócio”. Essa atitude era mesmo considerada, nos fóruns da especialidade, uma receita de boas práticas.

Uma segunda vaga de alertas foi produzida. As células mais prudentes achavam desajustado descurar as funções hepáticas tradicionais, mas as mais aguerridas tinham muito “foco no negócio” e tinham também mais capacidade de suportar condições adversas. Algumas chegaram mesmo a dizer que o lixo acumulado afetava todos e não apenas o fígado e, como tal, quem quisesse que se preocupasse… o que interessava mesmo era a subida no ranking do cérebro. Ao mesmo tempo, nos restantes órgãos, movimentos congêneres emergiam. Disputavam informação entre si e foram criadas, nos pulmões e no pâncreas, unidades de espionagem industrial.

Entretanto, os esforços começavam a surtir efeito. Aproximava-se a data em que as medições seriam feitas e o trabalho de mudança genética estava a resultar. Muitas células tinham aquele gene alterado e estavam conseguindo produzir mais energia nervosa do que antes. Alguns problemas colaterais emergiram, mas a sua maioria estava a ser reparada. No corpo, como um todo, cada um dos órgãos estava agora mais parecido com o cérebro. Muitas desarmonias tinham sido criadas porque as funções tradicionais de cada órgão eram relegadas para um plano secundário. Aquilo que era mesmo considerado relevante era subir no ranking do cérebro.

Nos anos seguintes, os esforços de subida no ranking foram cada vez mais afincados. No fígado, surgiram agrupamentos de células que se tornaram tão especializadas na produção de energia nervosa que mais pareciam neurônios. A possibilidade de chegar muito perto de uma das trés primeiras posições do ranking era cada vez mais plausível. Mas as funções tradicionais hepáticas eram também cada vez mais desprezadas. O fígado, ao invés de se ter tornado um melhor fígado, era agora mais parecido com um mau cérebro.

As notícias que saiam eram, na sua maioria, um elogio aos esforços daqueles que conseguiam subir no ranking, e por isso o fígado, tal como os restantes órgãos, colocava nisso a sua maior energia. Muitas das funções dos vários órgãos eram cada vez mais precárias, porque todos eles se centravam no propósito de subir no ranking do cérebro. Com tal desarmonia, começaram a surgir aglomerados de células que perdiam os mecanismos básicos de regulação. Reproduziam-se sem parar e criavam massas que de início davam animação a todos, porque eram muitas e multiplicavam-se em euforia.

Parecia mesmo que poderiam ser a salvação para a subida no ranking do cérebro. Sendo muitas, os esforços de todas, unidos, finalmente seriam capazes de destronar o cérebro da sua posição cimeira. Mas algum tempo depois esse sonho desvaneceu-se. Embora todas as células continuassem com foco no negócio, o corpo humano total estava a ficar exaurido, sem energia. Os aglomerados de células desreguladas já não eram motivo de euforia. Esgotavam a energia do corpo e fragilizavam cada vez mais as funções tradicionais de cada órgão. Como o cérebro era o primeiro do ranking, era quem alocava a energia aos diversos órgãos e essa energia era alocada, não em função do quanto cada órgão cumpria a sua missão singular, mas o quanto se assemelhava, na sua performance, ao próprio cérebro!

O tempo passou e a estabilidade do corpo no seu todo era cada vez mais frágil. Mas como os trés órgãos do topo do ranking tinham ganhado muito poder (porque recebiam muita energia), não permitiam alteração da situação que lhes era tão favorável. Sentiam-se orgulhosos da sua conquista e resolviam individualmente para si os problemas gerados pela ineficiência com que as funções tradicionais de cada órgão eram cumpridas. Eram soluções precárias, mas que lhes permitiam continuar a reinar. Sentiam-se importantes porque estavam rodeados de outros órgãos incapazes de se assemelhar ao cérebro. Eram por isso vistos com admiração, apresentados como exemplos a seguir, e inúmeras células se dedicavam a seguir-lhes os passos para contar a todas as outras o que deveriam fazer.

Ao fim de sete anos, o ranking ainda tinha sofrido poucas alterações. O cérebro tinha reforçado a sua posição no primeiro posto, e o fígado e o pâncreas tinham conseguido também subir para os segundo e terceiro postos. Porém, o corpo no seu todo estava agora a entrar em colapso. Os médicos que o observavam não lhe davam mais do que poucos meses de vida, mas as células continuavam ignorando os avisos. Dominava o pensamento de que, se houver mesmo um colapso total, há que se aproveitar enquanto ê possîvel. E foi nessa situação moribunda, quando as forças finalmente começavam a esgotar-se completamente, que todos os órgãos se deram conta de que tinham sido enganados pelo cérebro. Ele tinha criado um ranking que os iludia na ideia de que deveriam procurar ser como ele, ao invés de aprofundarem e melhorarem a sua singularidade, aquilo que de específico cada um poderia oferecer para tornar o todo melhor. Mas era talvez tarde demais… ou talvez não!